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Da secação

23/05/2012

Sim, do verbo sacanear, derivado daquele pecado capital que dificilmente alguém admite cometer, fora a ‘branca’ (não creio que exista ‘variação de cor’ nesse tipo de coisa, como ‘meio grávida’ ou ‘meio viado’, mas…). Como bem disse o camarada Márvio no sexto princípio de seu ótimo blog, ‘torcer contra é direito inalienável do torcedor’. Concordo que isso seja da natureza dos amantes do nem tão nobre esporte bretão. Neste último mês, o comportamento de ficar com os olhos bem abertos assistindo aos jogos dos rivais foi o mais perto que cheguei da minha paixão clubística.

Só que tem um porém depois do ponto parágrafo. Há maneiras e maneiras de você exercer o seu direito. No mundo do futebol, também existe aquela linha tênue onde se delimita o seu e o meu, a fronteira entre a civilidade e a selvageria, o que deveria nos diferenciar dos animais das torcidas organizadas.

Longe de mim querer normatizar a paixão. Essa expressão de sentimento não tem explicação. Mas, assim como quem ama não deveria matar, aquele que torce por um não tem o direito de ultrapassar o limite da boa e saudável zoação.

Basicamente, o que vem me incomodando e deixando cada vez mais indignado de uma década para cá neste assunto é o seguinte: vibrar mais com a desgraça alheia do que com a própria alegria. Ok, podem dizer que é de nossos instintos ter essa forma estranha de felicidade pelo ganho comparativo. Mas acho ‘exagerado demais pacas para caramba à beça’ o secador fazer mais do que gargalhar na hora do gol no rival, dar aquela zoadinha depois da derrota adversária para outrém e até, no mínimo esboço de recibo do ‘sacaneado da rodada’, lembrar de tudo que o dele tem e o que o outro ainda não conquistou, como um título mundial, por exemplo. O que acho exagero é gritar (de gol ao ‘chupa’ dos que não engolem a gozação dos outros), trincar os dentes e cerrar os punhos. Mas, abominável mesmo é o que chamo de ‘corticização’ da sociedade, com todo o respeito a quem tem bons modos e precisa morar nesse tipo de edificação. O que abomino de um tempo para cá é o costume de ir para a janela de casa e invadir o espaço sonoro alheio com impropérios, fogos, buzinas e o que mais sair do arsenal da má educação, em jogo do seu ou do meu time.

Não, não quero que terminem as camisas provocativas do dia seguinte, além de faixas, cartazes, musiquinhas e caixões de arquibancada. Reconheço a tradição disso, acho extremamente saudável. Aliás, até me interesso, e muito, por esse tipo de manifestação, a ponto de fazer da zoação um blog de atualização constante e de boa audiência no Extra Online, em época em que flagrei cenas das mais divertidas de minha tímida vida de videomaker.


I’ve a dream. Talvez, seja ingênuo ao achar que o meu parâmetro de boa educação, familiar e esportiva, possa servir de parâmetro para uma situação (derrota alheia) que beira o caos (gozação não tem regra, né?). Fazer o quê? A infância feliz que tive por causa Dele me formou assim. Nem a adolescência difícil ‘rubro-negristicamente’ falando, com ‘apenas’ uma Copa do Brasil, um Carioca e um Brasileiro , com alguns vices pelo caminho, tampouco a ‘dura’ vida adulta nos últimos 20 anos, só com dois títulos nacionais, dois tris estaduais e apenas um outro título internacional, fizeram minha personalidade mudar. Seco, sim, mas não esboço além de um risinho de canto de boca e uma ou outra sacaneada. Passo longe da frenética atualização de status que virou moda nas redes sociais com sacaneadas ao time alheio.

Bom, devo dizer que minha manifestação aqui é dirigida especialmente ao desgraçado que teima em tocar a buzina no oitavo andar do prédio em frente ao meu a cada gol feito pelo seu time ou sofrido pelo meu, seja a hora que for. Esta figura abominável é a representação do brasileiro que não sabe qual é a diferença entre simpatia, educação e civilidade. Mas isso é tema para outro post.

Termino aqui desejando ‘merda’ aos co-irmãos nos espetáculos de hoje à noite. A cerva já está gelando para minha programação do início ao fim da noite. Vou até vestir uma camisa com a mesma combinação de cores adotada primeiramente pelo meu clube do coração, comprada em La Bombonera, não de mais uma dessas torcidas de ocasião criadas por desinteressados pelo seu próprio clube do coração. Mas não vou, de jeito algum, mesmo se acabar assistindo a uma tragicómédia rival, chegar perto de minha janela.

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